Bem, quem acompanha essa birosca (?!) vai sacar que o projeto agora é escrever. Diferente de antigamente, agora vou radicalizar a proposta de escrever pra mim mesmo, pro meu próprio registro. Sabe como é, a idade vem chegando a gente sente as coisas se esfarelarem.
Pois bem, acabo de voltar do Frei Caneca (vou me poupar de fazer piadas com o antro) onde vi e ouvi Vicky Cristina Barcelona, último filme de Woody Allen. Eu, pseudointelectual, adoro o Woody Allen, mas nunca consegui ver mais que dois filmes dele na seqüência. Acho Rosa Púrpura do Cairo inesquecível e dei muitas, mas muitas risadas com aquele filme que é um pretenso manual sobre sexo (só a idéia do Woody Allen fazendo esse manual já é de rir pra parar de escrever o post). Dos mais recentes, Match Point é absurdamente contagiante e a imagem da Scarlett Johanson (sei lá como se escreve) gritando “you’re lier, you’re lier” é de fuder de sexy. Já o tal do Cassandra’s dream é bem esquecível.
Mas voltando a Vicky Cristina Barcelona, é curiosíssimo notar como o woody fica cada vez mais irônico. Ele deu conta de fazer o melhor filme pornô que já assisti. O Bardem deixou de ser o emo assassino de No Country for old man e o aleijado de Mar Adentro. Agora ele se assume como galã. Se estivesse no Brasil, estaria pau a pau com Fabio Assunção (que diga-se não está numa fase boa da carreira). Um artista plástico, no sentido mais século-XIX da expressão, bem sucedido, o cara, come as três gostosas do filme, por vezes duas ao mesmo tempo. Ele é ponderado, sabe brigar quando é pra brigar. Um Latin Lover.
Scarlett vai com o vento do roteiro. Faz um Cristina que não sabe o que quer da vida e que está aberta a todas as experiências. Pouco verossímil. Mas Woody dá conta de produzir cenas ilariantes como a da primeira trepada com Bardem que não acontece porque a moça estava com úlcera (coisa de hipocondríaco).
Penélope Cruz é a comédia personificada. Quando ela entra, neurótica, espanhola, almodovariana, eu não conseguia parar de rir.
A história envolve uma dicotomia entre a vida artística e todas as outras vidas. Tudo acontece numa atmosfera de profunda independência financeira. Nesse ponto Woody Allen fala para os seus e deixa bem claro que essa vida só existe pra quem a palavra dinheiro nunca foi uma preocupação. Ele dá conta de instituir uma lógica que não pode sair uma linha do combinado no filme, com parentes vindos do além que recebem duas pessoas em Barcelona, maridos que resolvem casar de um dia para o outro em outro país, lésbicas sem ciúmes (viados, nunca, que woody é machão) e uma série de diálogos que a mim se apresentam como uma grande ironia com a vida dos próprios artistas.
É como se o cineasta americano tivesse se dado conta, assim como o diretor do declínio do império americano, que as relações do mundo não passam de descansos entre uma trepada e outra. Tudo bem, há um recorte, mas até a mais tiazinha do filme tem seu caso.
Bardem, el comedor de Oviedo, y sus chicas
Enfim, o melhor filme pornô que já assisti. Pois o que falta aos pornôs, em geral, pra se tornarem obras-primas é deixar quem assiste com “vontade-de-quero-mais”, ou seja, aquilo que eu tanto gosto, a incompletude. E nesse filme o woody dá um show de incompletude ao colocar personagens que a procuram a todo momento e que não a encontram, a não ser pelo fato de não a encontrarem.